Manifestação da Sociedade Paulista de Infectologia sobre pesquisa do Conselho Federal de Medicina abordando opinião dos médicos sobre a obrigatoriedade da vacinação de crianças de 6 meses a 5 anos contra a Covid-19.

A consulta de opinião da classe médica a respeito da obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19 em crianças de 6 meses a 5 anos de idade causa-nos estranheza.

Em primeiro lugar, porque é feita na contramão das evidências epidemiológicas e científicas. Sabemos que a covid-19 pode causar quadros graves na população pediátrica, e a mortalidade é quatro vezes maior naqueles menores de 5 anos. Ao longo da pandemia foram registradas mais de 1.000 mortes por covid-19 nessa faixa etária no Brasil, sendo 135 no último ano (2023). Também há extensa evidência sobre a efetividade e a segurança da vacina na literatura científica.

Um outro aspecto diz respeito aos limites da autonomia médica. O próprio Conselho Federal de Medicina, no seu parecer número 32 de 1999, afirma que “A autonomia médica, por ser subordinada a protocolos científicos, tem limites condicionados a escolas, a métodos e experimentações prévias e nunca pode ser entendida como liberdade profissional irrestrita.” Em coerência com esse princípio, não é possível argumentar a autonomia em contradição a políticas públicas baseadas na melhor evidência atual e permanentemente rediscutidas diante de novos achados científicos.

A ciência na medicina nasce de estudos bem conduzidos que envolvem a experimentação laboratorial, estudos translacionais, ensaios clínicos e pesquisa epidemiológica. Não é admissível que se utilize de pesquisas de opinião para questionar medidas importantes em saúde pública.

Preocupa-nos, sobretudo, a possibilidade de esta consulta promover a desinformação e o fortalecimento de movimentos pseudocientíficos. Nesse caso, o resultado pode ser o enfraquecimento dos programas de vacinação, com aumento de doença grave e mortes na população.



Sociedade Paulista de Infectologia, em nome da Infectologia Paulista



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