Stewardship de antimicrobianos: muito além da otimização...?

* Carlos Kiffer

Desde a descoberta na década de 1930, os antimicrobianos floresceram por muitos anos. A resistência, no entanto, é nossa longa conhecida. O próprio Fleming alertou-nos sobre seus riscos em discurso do Nobel em 1945. Apesar disso, alimentamos por muito tempo a esperança de que venceríamos esse fantasma com o gênio da inovação! Sentimento reforçado pelo surgimento de 14 novas classes de antimicrobianos entre 1935 e 2003.

Desde então muito mudou. Apenas uma nova classe! E infecções mais complexas, microrganismos multirresistentes consequência direta ou indireta dos antimicrobianos, responsáveis por grandes morbidade e mortalidade, e aumento drástico dos custos de saúde. O século XXI trouxe a necessidade de repensarmos nossas visões. No caso dos antimicrobianos, de sua invenção ao uso agropecuário e humano.

Diversas ações são recomendadas, a fim de encontrarmos saída da crise galopante que se avizinha: uma era sem opções de tratamento! Se ainda houver incrédulos, recomendo a leitura do “Review on Antimicrobial Resistance” (https://amr-review.org/), brilhante estudo comissionado ao economista Jim O’Neill. Uma de suas conclusões: usar melhor os antimicrobianos disponíveis!

Neste milênio, quem floresce é o termo stewardship. É, porém, de difícil tradução. ‘Manejo’ ou ‘gestão’ não traduzem sua essência: um conjunto de ações que abranjam o planejamento responsável e o gerenciamento dos recursos! Geralmente, usamos “otimização” como sinônimo. E talvez seja de fato a palavra que mais se aproxime. Significados de lado, é essencial estabelecermos estratégias para uso dos antimicrobianos que englobem: a compreensão das resistências e dos fenômenos desencadeantes em cada ambiente; a seleção dos melhores fármacos para situações locais; as formas de uso mais apropriadas dos selecionados. E com planejamento constante, ágil e o mais próximo possível ao tempo real das infecções.

Os benefícios dos programas de stewardship de antimicrobianos são evidentes: melhores desfechos de condições graves; redução de eventos adversos; melhora nas taxas de resistência; otimização de recursos; e sobretudo, melhor cuidado ao paciente! Vale lembrar, para além das doses, a otimização deve envolver o conhecimento do próprio ambiente, o planejamento responsável com base em dados contemporâneos e a destinação de recursos farmacológicos das melhores formas (drogas, doses e durações). Com ações planejadas e responsáveis, o futuro dos antimicrobianos, e consequentemente nosso, há de ser menos sombrio.

Carlos Kiffer é Professor Adjunto, Disciplina de Infectologia, EPM/UNIFESP - Laboratório Especial de Microbiologia Clínica – LEMC-Alerta





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