Darwin: usos e abusos

A ciência contemporânea reverencia – com total razão – Charles Darwin. Aqueles que se dispuseram a enfrentar as páginas d’ A Origem das Espécies certamente se surpreenderam com sua capacidade de argumentar e sintetizar achados em uma hipótese que em sua época era revolucionária. Quem leu uma de suas excelentes biografias, Darwin: A vida de um evolucionista atormentado, Geração Editorial de Adrian Desmond e James Moore ou os dois volumes (Charles Darwin: viajando e Charles Darwin: o poder do lugar, Editora Unesp) de Janet Browne, sabe o quanto lhe custou rever todas suas crenças para admitir evidências que eram consideradas heréticas.

Mesmo quem não concorda com suas ideias tem que admitir que Darwin e Freud tiveram profundo impacto sobre a sociedade no século XX. Os desenvolvimentos da genética, arqueologia e linguística permitiram que ideias evolucionárias abordassem de forma extraordinária a origem do homem e suas migrações pré-históricas, como mostra o enciclopédico livro The Global Prehistory of Human Migration, Ed. Willey-Blackwell , compilado por Peter Bellwood.

Mas a teoria da evolução pela seleção natural também deu sustento a iniciativas nefastas. A eugenia (tentativa de “aprimorar” o ser humano) escancarou diversas políticas de “higiene racial”. Culminou no projeto Lebensborn, em que os Nazistas estimulavam a reprodução (muitas vezes com violência sexual) de arianos puros, para restaurar a glória da “raça nórdica”. Pesquisas mais discretas (mas não menos racistas) em eugenia foram desenvolvidas nos Estados Unidos e União Soviética.

Mas a face mais cruel do “darwinismo social” está em curso no Brasil. Em plena pandemia, autoridades já defenderam em lives privadas que deveríamos deixar a Covid-19 circular livremente, matando centenas de milhares, mas mantendo a economia aquecida. Não escapa à visão desses “iluminados” que a seleção natural da doença eliminará favelados, pretos e pobres (e quem sabe, a população carcerária, o que para eles é um bônus). Não é efeito colateral, é um projeto deliberado da elite.

Em um país que direcionou imensos recursos para produzir medicações ineficazes e em que líderes estimulam as aglomerações e a negligência no uso de máscaras, tudo pode piorar. O Congresso Nacional acena para aprovação de lei que permite a empresas a adquirir vacinas contra Covid-19. Pode parecer algo inócuo em uma sociedade liberal. Mas isso esconde uma verdade cruel.

Há escassa produção de vacinas no mundo inteiro. Empresas e grupos corporativos competirão pela compra com órgãos públicos, notadamente o Sistema Único de Saúde (SUS). Vacinas serão garantidas pelos ricos e poderosos. Ou – como mostra liminar concedida ao sindicato de comerciários de Campinas – a grupos estratégicos para “manter o comércio de varejo”. Adeus à priorização de grupos mais expostos, adeus à preferência de indivíduos mais vulneráveis. Apostamos no salve-se quem puder, para que os privilegiados possam fazer carreatas ainda mais sonoras contra as necessárias medidas de isolamento social.

O Brasil é um país reconhecido mundialmente pela excelência do programa de imunização. Todos os anos, profissionais da saúde sobem morros de favelas e navegam afluentes do Rio Amazonas para levar vacinas a crianças e idosos. São heróis anônimos, um grupo de trabalhadores com uma missão. Assim como médicos e pesquisadores, eles compreendem que a maior parte das vacinas têm um impacto essencialmente coletivo. Que planos de vacinação devem ter uma lógica de equidade e justiça, princípios fundamentais do SUS.

Sim, esses enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde tem uma grande visão do bem comum. Esses são os imprescindíveis. Já nossos representantes legislativos decidem abertamente que ricos possuem mais direito à vida, deixando os outros à mercê das leis de Darwin.

Carlos Magno Fortaleza, é Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia e professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu

 





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