12º Congresso Paulista de Infectologia abordou o tema: Novos antimicrobianos, com ênfase na multirresistência que acontece na realidade brasileira

Entre os dias 30 de novembro e 4 de dezembro, a Sociedade Paulista de Infectologia (SPI) realizou o 12º Congresso Paulista de Infectologia, sendo esta a primeira edição 100% online. No último dia de evento, a Dra. Ana Cristina Gales, coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da Sociedade Brasileira de Infectologia e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) abordou o tema: Novos antimicrobianos, com ênfase na multirresistência que acontece na realidade brasileira.

O Dr. Ricardo Cantarim Inacio, médico de controle de Infecção hospitalar no Hospital do Servidor Público Municipal e a Dra. Priscila Pereira Dantas, médica infectologista pela  UNIFESP, coordenaram esta aula que abordou o panorama do País e a entrada de novos antimicrobianos que estão em fases de testes e de validação pelos órgãos oficiais (FDA e ANVISA).

A Dra. Ana Cristina Gales abriu a palestra trazendo os principais agentes etiológicos do Brasil que causam infeções em UTI adulto e pediátrica. “Temos cinco patógenos principais, entre eles, três são bacilos Gram-negativos e o que mais assusta é a frequência de resistência dos carbapenêmicos”, explica a médica.

O uso de antimicrobianos é muito importante, pois permite que outros procedimentos médicos sejam realizados, como transplante de órgãos, quimioterapias e grandes cirurgias. Embora a resistência aos antimicrobianos tenha aumentado nos últimos 10 anos, também houve o desenvolvimento de novos antibióticos, e a meta 10 x 20 da Sociedade Americana de Infectologia foi alcançada, e, mais de dez novos antimicrobianos seguros e eficazes foram licenciados até o ano de 2020. Na verdade, 14 novos antimicrobianos foram licenciados até 2019.

Ainda de acordo com a aula da médica infectologista, "é um grande problema nos hospitais brasileiros quando existem as carbapenêmicos classes A, B, C, D”. Ela explicou os principais antimicrobianos em aplicação para cada tipo de classe e ressaltou que a KPC é a carbapenemases mais frequente em todo território brasileiro, enquanto outras carbapenemases são mais comuns em determinadas regiões, como a OXA-370 (derivada da OXA-48) é mais frequente no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Outro ponto que a Dra. Gales trouxe ao público do Congresso é que é a primeira vez que aparece no relatório da ANVISA as estatísticas sobre a resistência às polimixinas.

Para a comunidade médica, essa alta frequência de resistência encontrada nos hospitais do Brasil põe em risco todos os avanços realizados no último período. Isso porque, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, teremos de 23 mil a 30 mil ou mais mortes, por ano, associadas às infecções por bactérias multirresistentes em diferentes países, incluindo o Brasil.

Um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) relaciona a multirresistência a fatores como prescrição e venda inadequada de antibióticos; uso irregular de antimicrobianos fora dos limites das instituições de saúde; incentivos insuficientes ao desenvolvimento farmacêutico de novos antimicrobianos; entre outros.


A Dra. Gales reforçou que, apesar disso, existem diversos antimicrobianos em desenvolvimento e testes, porém que estão fora das grandes indústrias farmacêuticas, em empresas menores e startups. “Eles estão em fase de testes iniciais ou mesmo testes de nível 3. Porém, depois dessa etapa ainda teremos a aprovação dos órgãos regulatórios (FDA e ANVISA) e, com isso, os antimicrobianos demoram mais tempo para chegarem ao mercado”, comentou a médica.

E ela finalizou a palestra, alertando que para sejam realizados estudos que nos apontem, qual o melhor cenário para o uso desses novos antimicrobianos, onde eles serão mais custo-efetivos. Ela também deixou para os participantes do evento uma pergunta: ‘Como disponibilizar estas drogas para quem realmente precisa?’, afirma, considerando que no SUS nem sempre é possível prescrever esses medicamentos devido ao custo dessas medicações, ficando boa parte centralizada nos hospitais particulares, sendo que todos têm as mesmas necessidades.

“Tenho muita expectativa em drogas, como o Cefiderocol, apesar de um estudo ter demonstrado que os pacientes com infecção por cinetobacter tiveram uma maior mortalidade quando receberam esse antimicrobiano. Porém, vamos aguardar uma análise mais detalhada já que infecções por Acinetobacter são muito frequentes no nosso País e poucas são as opções terapêuticas. Vamos esperar as novidades nestes dois pontos”, concluiu a infectologista.

Em breve, essa e todas as apresentações do 12º Congresso Paulista de Infectologia estarão disponíveis no site da SPI, na aba Educação Continuada.





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