A epidemia por SARS-COV-2

Em dezembro de 2019 os serviços de saúde na cidade de Wuhan, capital da China Central, receberam um número crescente de pessoas com pneumonias graves. Havia algumas semelhanças entre os casos: os resultados de exames microbiológicos resultaram negativos e a maioria dos doentes estivera em um mesmo mercado de frutos do mar. Poucas semanas após os primeiros casos foi descoberto o agente destas infecções respiratórias - um novo coronavírus.

Os coronavírus são uma família de vírus RNA fita simples positiva, conhecidos desde a década de 1960, que acometem diversas espécies de vertebrados. Destes, sete tipos são capazes de contagiar seres humanos, com maioria de casos leves, causam de 10 a 15% dos resfriados. Já houve duas epidemias documentadas de relevância global por coronavírus, a SARS a partir de 2002 que se disseminou a partir da China, teve 8098 episódios confirmados e causou 774 mortes ao redor do mundo e a MERS  que surgiu a partir da Arábia Saudita em 2012 atingiu 2494 e desencadeou 858 mortes. 

O vírus responsável pela epidemia atual recebeu da Organização Mundial de Saúde (OMS) o nome de SARS-CoV-2 devido à sua semelhança filogenética com o vírus da SARS, e a doença é nomeada pela sigla Covid-19.  Até o dia 04 de março havia 95.333 casos confirmados de Covid-19 em 85 países distintos, sendo 84% em território chinês. Um total de 3.282 mortes, sendo 92% na China. As novas infecções são ascendentes em todo o globo, com situações mais graves na Coréia do Sul, Itália e Irã. Nesse contexto a OMS, que já determinou se tratar de uma emergência de saúde pública de interesse internacional, e está em discussão sobre a declaração de pandemia.

No Brasil há oito casos confirmados, um no Estado do Rio de Janeiro, um no Espírito Santo, e os demais São Paulo, desses dois pacientes não tiveram histórico de viagem, mas tiveram contato direto com o primeiro caso confirmado de Covid-19 no Brasil.

A Covid-19 tem maior incidência em adultos, apenas 2,1% dos casos ocorreram em pessoas com menos de 20 anos. Os sintomas mais frequentes são febre, tosse seca e desconforto respiratório, e 80% dos pacientes tem apresentações leves. Cerca de 14% tem doenças graves e 5% apresentações críticas. O achado laboratorial mais recorrente foi a linfocitopenia achado em 83,2% dos pacientes. Em estudo recente publicado na China, os desfechos incluíram 5,0% de admissão em unidades de terapia intensiva, 2,3% que demandaram ventilação mecânica e 1.4% de mortes.

O diagnóstico é feito por biologia molecular, através de RT-PCR para SARS-CoV-2. No dia 05 de fevereiro de 2020 a OMS divulgou a sorologia para este vírus, o que ajudará a determinar um número mais acurado de casos em futuros estudos soroprevalência. Em São Paulo as amostras respiratórias devem ser encaminhadas para o Instituto Adolfo Lutz, e para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEM) dos respectivos estados.


Até o momento não há tratamentos específicos para os coronavírus, mas há protocolos de pesquisa com diversas substâncias que já demonstraram efeito contra vírus desta família em cultura de células. Entre as substâncias podemos destacar ensaios clínicos envolvendo remdesivir, lopinavir/ritonavir e cloroquina como potenciais terapêuticas.


Não existe vacina disponível, a prevenção contra as infecções por coronavírus é semelhante a das demais infecções respiratórias: higiene das mãos, evitar mãos na face, boca, olhos e nariz, etiqueta da tosse, uso de EPI, como máscaras e óculos por profissionais de saúde em contato com casos suspeitos ou confirmados, precauções de gotículas para casos suspeitos hospitalizados.

 Em relação ao uso de máscaras podemos citar duas controvérsias: a primeira em relação ao uso delas com objetivo de prevenir infecção em ambientes públicos, medida frequente em países do leste asiático, sem qualquer evidência de eficácia, deve ser desencorajada pelos especialistas. A segunda é em relação à indicação para profissionais de saúde: trata-se de um vírus de transmissão por gotículas, nesses termos a máscara cirúrgica é suficiente para o atendimento desses pacientes, sendo que a N95 deve ser reservada para uso em procedimentos que podem gerar aerossóis, por exemplo: coleta de swab nasal, aspiração de vias aéreas, intubação orotraqueal. A indicação liberal de N95 pode incorrer na falta desta em situações em que é realmente necessária.

Nós, infectologistas devemos estar atentos às infecções emergentes, como é o caso da Covid-19, mas também diligentes em relação às epidemias de pânico e desinformação, nesses termos precisamos divulgar em nossos locais de trabalho, e quando possível, em espaços mais amplos de comunicação, informações corretas sobre esta epidemia e demais doenças infecciosas. Além disso, é importante ressaltarmos em momentos de crise como o atual a relevância do nosso Sistema Único de Saúde, com nossa estrutura de vigilância e inteligência que nos coloca numa situação privilegiada em relação à capacidade de enfrentamento desta e de outras epidemias. De outro lado é fundamental nos somarmos à sociedade civil em relação à exigir que a estrutura assistencial esteja à altura das demandas, uma epidemia em que 5% dos casos necessitam de cuidados intensivos poderia ampliar o caos assistencial pelo já insuficiente número de leitos de UTI que se agrava com a diminuição de leitos hospitalares de  financiamento do SUS.

*Gerson Salvador, é médico infectologista, associado da SPI  e especialista em saúde pública, atua no Hospital Universitário da USP e na Rede Lucy Montoro


 

Works Cited

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