Vacinas pneumocócicas conjugadas e o estado de portador do pneumococo em nasofaringe

Por: Luciana Sgarbi 

O Streptococcus pneumoniae (pneumococo), com mais de 90 sorotipos conhecidos, é um dos mais importantes patógenos causadores de doenças como otite média, sinusite, pneumonia, sepse e meningite. A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 500 mil crianças menores de 5 anos de idade são infectadas, anualmente, sendo que a vasta maioria dos casos ocorre em países em desenvolvimento. Adultos, especialmente idosos e imunossuprimidos, também sofrem uma importante carga de morbimortalidade por este patógeno.

A colonização em nasofaringe é um passo fundamental para o desenvolvimento de doença local e invasiva e esta se dá muito precocemente após o nascimento, atingindo sua taxa mais elevada no pré-escolar e diminuindo com o avançar da idade. A prevalência de portadores em nasofaringe é muito variável em diferentes países e regiões e os fatores associados à aquisição do pneumococo, a sua transmissão e transição, desde uma colonização assintomática para uma doença respiratória, localizada ou invasiva, ainda não são bem conhecidos.

Em 1983 foi licenciada uma primeira vacina pneumocócica, polissacarídica, contendo 23 tipos de pneumococo (Pn- 23) e em 2000, surge a primeira vacina conjugada, com a inclusão dos sete sorotipos que mais comumente produziam doença invasiva (Pn- 7V). Foi um importante marco na história da doença pneumocócica invasiva, produzindo um enorme impacto na redução dos casos nos países onde foi introduzida.

Além disso, observou-se ainda uma substancial redução na colonização e doença associada com os sorotipos presentes na vacina tanto em crianças vacinadas quanto em não vacinadas, assim como em adultos, ou seja, produziu uma importante proteção indireta ou herd immunity.

Por outro lado, houve um aumento na colonização em nasofaringe de sorotipos não vacinais ou replacement. Apesar do replacement em portadores acontecer em todos os cenários, a carga de doença produzida por esta situação é variável e suas razões são ainda pouco conhecidas.

Atualmente, dispomos de duas vacinas conjugadas, a Pn-10V que foi introduzida no Programa Nacional de Imunização (PNI) em 2010 e a PN-13V, disponível em serviços privados e recentemente incorporadas no PNI para pacientes acima de 5 anos de idade com doenças oncológicas, transplante de medula óssea e de órgãos sólidos e pacientes vivendo com HIV/AIDS. A magnitude do impacto da vacina pneumocócica conjugada depende de inúmeras razões como a variação da distribuição dos sorotipos de pneumococo, padrões de transmissão, cobertura e cronograma de administração, efetividade da vacina por cenário e fatores de risco populacional, entre outros.

No Brasil, os dados do projeto SIREVA mostram a prevalência dos diversos sorotipos isolados e a sensibilidade antimicrobiana a partir de doenças invasivas em diferentes regiões, fundamentais para se acompanhar e conhecer as modificações dos sorotipos encontrados na população e para realizar as futuras mudanças nas vacinas do Programa Nacional de Imunização.
 
*Dra. Luciana Pedral S. Sgarbi é médica responsável pela Sgarbi Vacinas em Marilia (SP) e associada da SPI





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