Precisamos falar sobre sepse

Por: Gerson Sobrinho Salvador de Oliveira

Sepse é definida como disfunção orgânica ameaçadora à vida causada pela resposta desregulada do hospedeiro à infecção (Rhodes, 2016). O termo sepse, que em grego significa “putrefação”, foi mencionado na obra de Homero, utilizado por Hipócrates, Aristóteles, Plutarco e Galeno, e tem sido usada há cerca de 2700 anos (Funk, 2009.).
 
Entretanto, apenas em 1991 houve pela primeira vez a proposta de critérios clínicos para o diagnóstico desta síndrome, revisados em 2001 e em 2016, quando foi apresentado o Sepsis 3.0, Terceiro Consenso Internacional de Sepse e Choque Séptico (Singer,2016). Falando de choque séptico, ele ocorre quando o caso evoluiu com disfunção circulatória e celular/metabólica, sendo ainda maior risco de morte (Rhodes, 2016), com letalidade que chega a 65,3% no Brasil (Sales Junior, 2006).

A partir desta época, o padrão de diagnóstico internacionalmente adotado se baseia na avaliação sequencial de disfunção orgânica (SOFA). Apesar de demandar um suporte laboratorial para a avaliação das disfunções é possível fazer uma triagem rápida à beira-leito a partir da observação do nível de consciência, pressão arterial e frequência respiratória (Singer, 2016). 

Os atuais critérios de diagnóstico de sepse e choque séptico são mais acurados para diagnosticar a chance de evolução adversa, incluindo morte. Entretanto, eles perdem em sensibilidade para o padrão anterior que se baseava na presença da síndrome da resposta inflamatória sistêmica SIRS (ILAS,2018). 

Organizações como o Instituto Latino-americano de Sepse (ILAS) tem preconizado que em nosso meio sigamos utilizando a SIRS para triar pacientes, devido à elevada mortalidade associada à sepse em países pobres como o Brasil. Ainda que não faça parte dos critérios de diagnóstico, seria desejável ter meios mais sensíveis para alertar sobre a possibilidade do problema (ILAS,2018). 

É possível diminuir seus efeitos, inclusive salvar vidas, se o diagnóstico e a intervenção adequada forem precoces. Sempre que for possível na primeira hora de atendimento devem ser coletados exames laboratoriais incluindo culturas, lactato e avaliação de disfunções, além da introdução de antibióticos de amplo espectro e ressuscitação hemodinâmica para os paciente com sinais de má perfusão (Rhodes, 2016). 

É importante lembrar que em condições de terminalidade a sepse pode ser o evento final. Logo, é necessário avaliar as metas de cuidados, e se for o caso, adotar cuidados paliativos adequados, em acordo com o paciente ou seus familiares (Rhodes,2016).

Não podemos, entretanto, deixar de destacar que a elevada mortalidade por sepse em países periféricos, como o Brasil, não se dá apenas por lacuna de formação e conhecimento dos profissionais, a heterogeneidade em relação à oferta de serviços de saúde em emergências e terapia intensiva, com serviços públicos sub-financiados, certamente concorre com os resultados tão adversos.

A cada 3 a 4 segundos uma pessoa morre por sepse, desde que você começou a ler esse texto centenas de pessoas morreram por essa condição. Vamos multiplicar informação, qualificar a assistência e cobrar compromisso dos gestores e governantes. É possível melhorar o cuidado e diminuir a mortalidade. 13 de Setembro é o Dia Mundial da Sepse, vamos multiplicar esses sentidos.

*Gerson Sobrinho Salvador de Oliveira é médico infectologista IMREA/HCFMUSP e Hospital Universitário da USP e associados da SPI.  

Referências 
Singer M, Clifford S Deutschman CS, Seymour CW et al The third international consensus definitions for sepsis and septic shock (Sepsis-3). JAMA. 2016 Feb 23;315(8):801-10. doi: 10.1001/jama.2016.0287.

Rhodes A, Evans LE, Alhazzani W et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock: 2016. Intensive Care Medicine, 43(3), 304-377. doi:10.1007/s00134-017-4683-6 

Funk DJ, Parrillo JE, Kumar A et al. Sepsis and septic shock: a history. Crit Care Clin. 2009 Jan;25(1):83-101, viii. doi: 10.1016/j.ccc.2008.12.003.

Instituto Latino-americano de Sepse. Implementação de um protocolo gerenciado de sepse. 2018. 

Disponível em:https://ilas.org.br/assets/arquivos/ferramentas/protocolo-de-tratamento.pdf

Acesso em 10 de setembro de 2019


https://ilas.org.br/assets/arquivos/ferramentas/protocolo-de-tratamento.pdf




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