Leishmaniose: médico infectologista responde questões importantes sobre a doença

Valdir Sabbaga Amato - Associado do Departamento de Doenças Infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - Responsável Pelo Ambulatório de Leishmanioses da Divisão de Clínica de Doenças Infecciosas do Hospital das Clínicas da FMUSP


O que é a leishmaniose? Como ela é transmitida?
As leishmanioses são antropozoonoses que constituem um grave problema de saúde pública por representarem um complexo espectro clínico de manifestações e relevante diversidade epidemiológica. A Organização Mundial da Saúde estima que 350 milhões de pessoas estejam expostas ao risco de infecção em 88 países e são estimados 1,6 milhões de casos de leishmaniose por ano (500.000 viscerais e 1,1 milhão cutânea ou mucocutânea). Desses 1,6 milhões de casos estimados somente 600.000 são notificados. Há cerca de 12 milhões de infectados, atualmente.
 
Amplamente distribuída em todo o mundo (Américas, África, Europa e Ásia), a leishmaniose tegumentar (LT) é considerada pela OMS como uma das seis mais importantes doenças infecciosas devido ao seu alto coeficiente de detecção e à capacidade de produzir deformidades. No continente Americano, há registro de casos desde o extremo sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, com exceção do Chile e Uruguai.
 
As leishmanioses basicamente são divididas em leishmaniose tegumentar americana, que acomete pele e mucosas, e leishmaniose visceral, esta última acomete órgãos do sistema retículo endotelial especialmente, medula óssea, fígado, baço e gânglios linfáticos.
 
No Brasil, a forma de transmissão é através da picada de uma das várias espécies de flebotomíneos pertencentes a diferentes gêneros (Psychodopygus ou Lutzomyia).
 
Atualmente como está o cenário da doença no Brasil?
O cenário no Brasil se modificou bastante nos últimos anos em relação as leishmanioses, seja da forma tegumentar ou visceral. As mudanças são especialmente relacionadas à disseminação e expansão em todo território nacional da doença e também em relação à periurbanização e urbanização das leishmanioses. Acometendo inclusive grandes centros urbanos.
 
Existem novidades sobre o assunto? Se sim, quais são?
Sendo uma doença considerada negligenciada, as novidades geralmente provêm de grupos de Pesquisa centralizados em uniersidades públicas e em vários outros centros de pesquisa governamentais, destacando-se a Fundação Osvaldo Cruz. Estas novas informações estão relacionadas aos estudos epidemiológicos no intuito de melhor conhecer a diversidade e as características de transmissão da doença e, especialmente, novas Normas Técnicas provenientes do Serviço em Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Estudos produzidos por centros pesquisadores levaram também ao avanço em relação à orientação do tratamento desta enfermidade.
 
 
Atualmente, quais são os tipos de tratamentos disponíveis para a população?
A droga de primeira escolha no tratamento das diversas formas de leishmanioses ainda é o antimoniato de N-metil glucamina, droga antiga, com toxicidade apreciável, mas bastante importante em termos de saúde pública. Pela facilidade de aplicação, pela eficácia, e que pode ser aplicada por via intramuscular ou endovenosa, além do custo não muito oneroso ao Sistema de Saúde são os diferencias do uso da droga. Este medicamento na forma mucosa, da leishmaniose tegumentar deve ser associado a Pentoxifilina, um imunomodulador. O uso de Formulações lipídicas da anfotericina B, especialmente a anfotericina lipossomal, tem sido bastante estudado por alguns autores, no intuito de buscar uma medicação menos tóxica, e que tem indicação especialmente para pacientes com contraindicações para as medicações habituais e em indivíduos imunodeprimidos. A procura de uma droga por via oral pelos pesquisadores, que fosse de baixa toxicidade e poucos efeitos colaterais, tem sido objeto de estudos. A Miltefosina, medicação primariamente utilizada no câncer de mama, de uso oral, já é utilizada como droga para tratamento da leishmaniose visceral na Índia e para casos importados de leishmaniose tegumentar (forma cutânea) nos Estados Unidos da América. No Brasil esta medicação ainda não é aprovada pela Anvisa.
 
Podemos considerar a leishmaniose como um problema de saúde pública? Por quê?
As leishmanioses são um importantíssimo problema de Saúde Pública por várias razões. Pelo número de casos anuais que ocorrem no Brasil, cerca de 27 mil ao ano para a leishmaniose tegumentar e 7 mil novos casos ao ano para a leishmaniose visceral. Destaca-se também a morbidade causada pelas leishmanioses, como deformidades na forma cutânea e possibilidade de levar o paciente ao óbito na forma mucosa da leishmaniose tegumentar e na forma clássica da leishmaniose visceral. Por fim, devemos ficar atentos para as leishmanioses ocorrendo na forma de reativação em pacientes imunodeprimidos, como indivíduos portadores do Vírus da Imunodeficiência humana, pacientes transplantados ou submetidos a quimioterapia; há casos também relatados na literatura de reativação em pessoas em uso de anticorpos monoclonais anti-fator de necrose tumoral para terapêutica de doenças autoimunes. 
 
Sugestão de Leitura
 - LEISHMANIASIS EN LAS AMÉRICAS. RECOMENDACIONES PARA EL TRATAMIENTO. Organización Panamericana de la Salud. 2013
 - MANUAL DE VIGILÂNCIA DA LEISHMANIOSE TEGUMENTAR. SVS/2017 Ministério da Saúde.





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